06 Novembro 2009

A Matrix enquanto hipótese metafísica

«O filme Matrix apresenta-nos uma versão de uma velha fábula filosófica: um cérebro numa cuba. Um cérebro sem corpo flutua numa cuba que por sua vez está no laboratório de um cientista. O cientista encontrou maneira do cérebro ser estimulado com o mesmo tipo de inputs que um cérebro normal costuma receber quando está num corpo. Para se conseguir isto, o cérebro na cuba está ligado a uma gigante simulação do mundo. A simulação determina então quais são os inputs que o cérebro recebe. Por sua vez, quando o cérebro produz outputs estes são enviados para a simulação. O estado de funcionamento deste cérebro é igual ao de um cérebro normal, apesar de não estar num corpo. Da perspectiva deste cérebro as coisas são muito semelhantes àquilo que parecem a mim e a si.
Mas parece que este cérebro está completamente enganado. Parece que tem crenças falsas sobre tudo. Acredita que tem um corpo, quando afinal não tem. Acredita que está lá fora ao Sol, quando afinal está num laboratório escuro. Acredita que está num determinado sítio, quando, de facto, pode estar noutro completamente diferente. Talvez pense que está em Tucson, quando afinal está na Austrália ou mesmo no espaço sideral.
A situação do Neo no início do filme Matrix é similar a esta.»
David Chalmers

Texto a ler na íntegra no site Crítica

Outras ligações: 
Philosophy and the matrix
Vivendo na Matriz

13 Outubro 2009

Kolak/Martin - Sabedoria sem respostas

A filosofia é uma actividade e não um corpo de conhecimentos. Como todas as actividades requer perícia. Que tipo de perícia? Em poucas palavras: a habilidade para nos vermos a nós próprios e ao mundo de muitas perspectivas diferentes. (…) No nosso dia-a-dia, desenvencilhamo-nos perfeitamente bem ao apoiarmo-nos apenas nas nossas perspectivas. Mas mesmo no dia-a-dia, especialmente em alturas de conflito, a capacidade de abandonar as nossas perspectivas em prol de outras pode ser extremamente útil. Em filosofia, esta habilidade não é apenas útil, é essencial. Sem ela não podemos resolver problemas que são insolúveis no interior das nossas perspectivas habituais.
No fundo, sabemos que as nossas perspectivas não são as únicas válidas. Mas tendemos a expulsar esse conhecimento para a periferia da nossa consciência. Isto deixa-nos com um sentimento ameaçador e inconfortável, quando somos confrontados com pontos de vista diferentes dos nossos. Quando admitimos que os nossos pontos de vista assentam, em última análise, em pressupostos questionáveis e baixamos os nossos escudos contra pontos de vista alheios, sentimo-nos inseguros. (…)
Ter um ponto de vista ajuda-nos a vermo-nos a nós mesmos e ao mundo. Mas, se nos tornarmos demasiado apegados às respostas derivadas e apoiadas pelos nossos próprios pontos de vista, ficamos cegos a outros pontos de vista. Logo, ter um ponto de vista pode esconder tanto como aquilo que revela.
A filosofia mostra-nos como identificar as limitações dos nossos próprios pontos de vista. Mas faz mais: ensina-nos a sair de nós próprios, a atravessar as fronteiras dos nossos familiares quadros de referência de respostas.
Kolak/Martin, Sabedoria sem respostas, tr. Célia Teixeira, Temas e debates, pp. 14-16.

09 Outubro 2009

Argumentos indutivos, validade e força - Artur Polónio

A propósito da distinção entre argumentos dedutivamente válidos e indutivamente válidos é aconselhável ler este texto de Artur Polónio no site criticanarede.

05 Outubro 2009

Como elaborar um comentário filosófico?

Para elaborar um comentário filosófico a um texto obviamente deves começar por compreender esse texto. A análise e interpretação é o primeiro passo da elaboração do comentário. Nessa análise devemos procurar alguns elementos característicos de todos os textos filosóficos, a saber:
1. Tema – assunto geral sobre o qual se debruça o texto.
2. Problema filosófico – questão específica abordada e respondida no texto.
3. Tese – resposta do autor a essa questão (chamada também conclusão).
4. Premissas – proposições (ideias) que apoiam/sustentam/defendem a resposta do autor.

A esta fase de análise segue-se a fase da discussão da posição do autor. Alguns autores incluem nos seus textos a discussão de contra-argumentos às suas posições, outros não (como é o caso do pequeno excerto de Espinosa que analisaremos). Contra-argumento é uma resposta (tese) contrária à do autor acompanhada de motivos (premissas) que a justifiquem. Assim,
1. Se no texto existe essa discussão deves identificar os contra-argumentos à posição do autor presentes no texto e explicá-los.
2. Se não existe, deves procurar outros textos em que essa discussão se faça e seleccionar contra-argumentos para contrapor à posição defendida pelo autor do texto.
3. Se não puderes procurar outros textos (por exemplo, em situação de exame), deves recorrer aos teus conhecimentos próprios e apresentar esses contra-argumentos.
4. Por fim, deves tomar posição sobre a discussão, isto é, deves afirmar a tua opinião sobre o assunto, mesmo que ela seja coincidente com a de um dos autores analisados.

Neste ponto do nosso trabalho ainda não tens conhecimentos filosóficos para aprofundares a fase da discussão, mas em breve terás. Por isso, para já, analisemos o seguinte texto de Espinosa:

«Tal é a liberdade humana que todos se vangloriam de possuir e que consiste apenas nisto: que os homens têm consciência dos seus desejos e ignoram as causas que os determinam. É assim que uma criança crê desejar livremente o leite e um jovem irritado crê que é livre ao querer vingar-se ou fugir se é medroso. Um embriagado crê dizer por livre decisão da sua alma o que, regressado à sobriedade, teria querido calar. E ainda que constatem que estão divididos entre dois desejos contrários, muitas vezes vendo o melhor fazem o pior; apesar disso, os homens crêem, no entanto, que são livres

02 Outubro 2009

Como elaborar um ensaio filosófico?

Como já sabem o objectivo filosófico mais importante deste ano (10º) é ser capaz de realizar um pequeno ensaio filosófico. Nos nossos trabalhos iremos utilizar a estrutura que Artur Polónio nos propõe aqui.

20 Setembro 2009

O que é a filosofia?

A filosofia é uma actividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também analisam e clarificam conceitos. (…)
Que tipo de coisas discutem os filósofos? Muitas vezes, examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente «o sentido da vida»: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra «dever»? Estas são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas — uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.


Sabedoria sem respostas

Descobri só agora um excelente livro introdutório à filosofia. Chama-se «Sabedoria sem respostas» está editado pela Temas e Debates, tem tradução de Célia Teixeira e revisão científica de Desidério Murcho. A edição remonta a 2004 e o original é de 2002, mas só agora pus as mãos e os olhos em cima desta preciosidade. Bem escrito, num estilo diferente do típico texto professoral, bem preservado na tradução. Inspirado na máxima de Sócrates, o título não esconde o fundo da abordagem: ensinar a saber não é ensinar saber. Só me custou 11€ via Wook.

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